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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Não nos cortem as veias

Lisboa é uma cidade, logo, é um organismo vivo com um fluxo constante de gente, de cultura, de ideias, de opiniões que, por vezes, podem e devem divergir. Mas tendo em conta que fazemos todos parte deste organismo, é importante saber debater ideias para que todos consigamos fazer esta cidade mexer. 

Lisboa sempre foi uma cidade pluricultural, multirracial e foi isso que fez dela o que é hoje. Aliás, quando a privaram dos seus multis e pluris, os grandes pensadores fugiram para outros países da Europa (e nem com um estado laico deixou de haver essa pressão). 

Fugiu-nos a cultura, um dos principais bombeadores de pensamentos e um dos pilares da formação de qualquer pessoa. Faz-me confusão que os séculos tenham passado e, mesmo assim, cada vez mais ela seja passada para segundo plano. Os meus amigos artistas fogem para o estrangeiro, como se fossem perseguidos por um país que não compreende o que dizem e não reconhece a importância da sua linguagem. 

Vão-se esvaindo as ideias. A cidade vai ficando vazia. Nós vamos ficando vazios e nessa altura é fácil encherem-nos com qualquer coisa. Cuidado, meus amigos, cuidado não deixem a cultura morrer.



Lisbon's Blood Vessels – A mapping experiment from Pedro Miguel Cruz on Vimeo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Andersen Molière

Quando esta banda portuguesa entra em palco enche-o, não só por serem 7 elementos (o que ajuda), mas pelo detalhe que cada música tem. Os Andersen Molière transportam-nos para outro sítio, que não sei bem onde fica. Talvez, por isso, não seja um acaso o primeiro álbum ter nome de lugar, a "Aldeia dos Tristes", com direito a visita guiada dentro do CD (para o qual também vai um elogio pelo design).

E como destas coisas não interessa nada falar sem ouvir, oiçam aqui os Andersen Molière e comprem CDs que isso de só ter Mp3 não é bem a mesma coisa.



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Carta Aberta

Dear Mr. Woody Allen,

I couldn’t help to notice that you’ve being promoting Europe in your movies. I don’t know if you know, but Portugal is in a kind of an economical crisis. So, I was wondering if you could do your next movie in Lisbon.

Portugal has a great weather, really cheap labor work, a beautiful landscape, delicious food and great actors. Lisbon rests near the Tagus river and it’s really cosmopolitan, we even say Smurfs instead of Estrunfes.

Plus, you can get any governmental department to give you money, you just have to say that you need a “cunha” and it will lead you to places. This is a word with no translation, but so important to our people as “saudade”, although with a completely different meaning. Or you can just speak with Mariano Gago, he is great at getting financial support even when he doesn’t even wants. A great connection.

Now, to simplify all the process, I’ll make some suggestions for your casting. Lets assume, hypothetically speaking, that you would want a neurotic character. Well, you could use Alberto João Jardim, a great guy when you need some insane drama, and when I say insane drama I mean some extreme crazy passionate material, evolving underpants, lots of alcohol and the crazy  belief that government is after him.

If you have any trouble with your script being boring, you can always add an lesbian scene with Soraia Chaves and Daniela Ruah. Actually, if you put that scene in your movie you don’t need a plot.

I think I’m done, but if you have any question or you need any other advice, just contact me.

See you soon.

PS - Thank you Loulé for all the support.


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Caro Sr. Woody Allen, 



Não pude deixar de reparar que tem promovido várias cidades europeias. Não sei se sabe, mas Portugal está numa espécie de crise financeira. Estava a pensar se não podia utilizar Lisboa no seu próximo filme. 



Portugal tem um tempo espetacular, mão-de-obra barata, uma paisagem linda, comida deliciosa e ótimos atores. Lisboa está situada na margem do rio Tejo e é muito cosmopolita, até dizemos Smurf em vez de estrunfes. 



Ainda por cima consegue ter dinheiro para o seu filme através de qualquer departamento do governo, só tem que dizer que precisa de uma cunha. Esta palavra não tem tradução mas é tão importante para o nosso povo como saudade, apesar de ter um significado completamente diferente. Ou então, pode apenas falar com o Mariano Gago, ele é ótimo no que diz respeito a obter apoio financeiro, mesmo quando não o quer. Um excelente contacto. 



Agora, para simplificar todo o processo, vou fazer algumas sugestões para a escolha de atores. Vamos assumir que, hipoteticamente falando, o senhor queria uma personagem neurótica. Pode perfeitamente usar o Alberto João Jardim, um tipo excelente quando se precisa de ação, e quando digo ação estou-me a referir a material extremo, louco e apaixonado, que envolve roupa interior, muito álcool e pensamentos neuróticos como, por exemplo, achar que o governo anda a persegui-lo. 



Se tiver algum problema com o enredo, pode sempre fazer uma cena lesbiana com a Soraia Chaves e a Daniela Ruah. Na verdade, se puser esta cena no seu filme não precisa de enredo. 



Acho que é tudo, mas se tiver mais alguma questão ou quiser mais algum conselho, contacte-me.

Até breve. 

PS - Agradecimentos a Loulé por todo o apoio.





segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Esquizofrenia nacionalista

As nossas fronteiras, para além de limitarem o nosso território, limitam a nossa felicidade. Um português em Portugal é diferente de um português no estrangeiro. Aliás, completamente diferente.

Quando se sai do país para viajar, ficamos contagiados com o espírito nacionalista que toma conta de nós de rompante. Vamos comer a Espanha e dizemos que em Portugal é que se come bem, bebemos um vinho em França e elogiamos o vinho nacional, comemos pão na Alemanha e gabamos Mafra e o Alentejo, vamos às praias de Itália e orgulhamo-nos das nossas serem mais bonitas. 

Quando emigramos somos considerados um povo trabalhador, a entreajuda prevalece porque partilhamos as mesmas origens, origens essas de que temos muito orgulho. Uma cerveja ou um café português sabem a casa e partilham-se com os amigos autóctones as comidas que trouxemos, numa degustação gourmet de azeite, chouriço e bacalhau.

Depois há aquele dia em que voltamos. Mal pomos um pé em Portugal, a magia desaparece. Puf! A comida já não é a mesma coisa, o vinho tem mais aditivos do que uva, o pão é só fermento, as praias estão cheias de gente e só existem duas marcas de cerveja que sabem quase ao mesmo. Não temos vontade de trabalhar, por isso há que ser esperto e, se possível, culpar outro pelos nossos erros.

A fronteira de Portugal, para os portugueses, é uma espécie de portal para o cinzentismo. Faz sentido, por isso, que tenhamos sido nós a inventar o fado e a saudade. 

Já está na altura de deixar entrar no nosso país o espírito positivo português, de preferência sem pagar portagem.